Archive for agosto 30th, 2010

O médico Benny Kerzner é, há mais de 30 anos, um respeitado pediatra e gastroenterologista do Children’s National Medical Center, em Washington, DC, nos EUA. Figura na lista dos “top doctors” norte-americanos desde 1985. Entre as suas especialidades está a nutrição. E dentro dela, um tema em particular lhe intriga mais: são as desordens alimentares infantis.

Ok, ele não é o único a se debruçar sobre o tema. No Brasil, universidades sérias têm departamentos estudando esse tema, que é uma das principais reclamações dos pais nos consultórios pediátricos.

Porque falo deste médico. É que no final do ano passado ele publicou uma espécie de guia, se assim posso me referir, destinado aos pediatras, com sugestões de como lidar com as queixas das famílias sobre a relação da criança com o prato de comida.

Diz Kerzner que “entre 20% e 60% dos pais afirmam que seus filhos não comem bem, que são muito seletivos ou “esquisitos”, ou que comem muito pouco, que não avançam para uma alimentação mais complexa, rejeitando tudo que é novo, ou que só gostam de junk food”. Qualquer semelhança com a minha realidade (ou a sua) não é mera coincidência.

O intervalo entre a porcentagem de familiares queixosos (entre 20 e 60%) é grande, de fato. Mas uma coisa todos têm em comum: o tipo de reclamação. Se tanta gente fala, repete a mesma coisa (com pequenas variações), então tem gato nessa tuba.

Por isso, a decisão do médico norte-americano em chamar a atenção dos pediatras para ficarem mais atentos às queixas, principalmente das mães (valeu, Dr Kerzner! Agradeço a parte que me toca).

“Há espaço para se preocupar. Uma patologia grave, como a doença celíaca, pode se apresentar como uma dificuldade de alimentação. O pediatra deve, então, escutar a queixa e fazer uma abordagem interessada, levar em conta marcadores que possam indicar alguma patologia. O ideal é não menosprezar a fala da mãe, dizer que “não há necessidade de preocupação”, mas também não há necessidade de exagerar e manter um foco exclusivo na doença. Ambas posturas (menosprezo ou pensar apenas em doença) podem deixar muitas famílias ainda mais frustradas e, assim, corre-se o risco de aumentar a ansiedade dos pais e agravar as dificuldade alimentares.”

O médico, porém, diz que “há boas evidências de que as dificuldades alimentares podem não estar associadas a uma doença, mas sim a conflitos entre os pais e a criança.”  (Já vi isso antes!) Ou seja, o problema pode ser provocado mais por uma preocupação (irreal) da mãe ou do pai do que pela presença de uma patologia. Por isso, a necessidade de se ampliar (bemmmm) o horizonte da avaliação da queixa.

Ir além, analisar a relação da família com a comida e com a criança. (Para pediatras focados em doença, essa história de “como vai a sua relação com o espinafre?” pode não agradar). Enfim, o primeiro dado a ser checado, claro, sempre são as curvas de crescimento. Mas, para Kerzner, é preciso investigar mais até para descobrir que era mesmo um problema de mães ansiosas.

O médico afirma que “raramente os textos acadêmicos pediátricos fazem uma abordagem específica e detalhada sobre as dificuldades de alimentação na infância” (Oh, God. Ou seja, fica-se muito mais no superficial do que a nossa ignorância poderia imaginar. Daí, somos tachadas de malucas, mães doidas para que o filho como uma colher a mais. Humm, será que não se estuda de fato as queixas das mães?)

Enfim, a boa notícia é que Dr. Kerzner sistematizou nesse documento (gentilmente cedido ao Comer para Crescer pelo gentil Dr. Carlos Alberto Nogueira, diretor do departamento de nutrologia da Abran) perfis de crianças com problemas de alimentação. O “guia prático” elaborado por Kerzner, com informações também da Irene Chatoor, psicóloga que estuda há década as dificuldades alimentares ela lado psicológico, tem o objetivo de ajudar os pediatras a identificar quando o problema de recusa alimentar é orgânico, provocado por alguma doença, e quando ele é problema funcional, provocado pelo ambiente. Tanto que ela elaborou um questionário com perguntas a serem feitas aos familiares pelo médico da criança.

Neste semana, traremos textos sobre cada um dos tipos mais comuns de dificuldades de alimentação. Mas atenção: é um guia de orientação. Não é um guia definitivo. O pediatra, o nutrólogo ou a nutricionista são os especialistas mais indicados para determinar qual é o perfil de cada criança e o melhor tratamento.

A saber: esses são os perfis elencados por Kerzner:

1.  A criança normal com apetite limitado;

2. A criança inquieta e com pouco interesse na alimentação;

3. A criança deprimida com pouco interesse na alimentação

4. A criança com pouco apetite devido a uma doença orgânica

5. A criança altamente seletiva

6. A criança que chora quando começa a comer

7. A criança que tem medo da comida (neofóbico)

Beijos,

Patricia