Amo muito tudo isso?!

O excelente post de ontem da Mônica, sobre de quem é a responsabilidade pela alimentação dos nossos filhos (se você  ainda não leu, recomendo que leia antes de seguir a leitura deste post), provocou muitos comentários. Uma discussão muito legal sobre responsabilidades, ignorâncias, propagandas e educação. Um desses comentários em particular, o do Marcos Guterman, autor de blog homônio no www.estado.com.br, nos chamou muito a atenção por ser uma aula sobre o mundo real e o imaginário. Decidimos transformá-lo em post para ampliar a discussão sobre responsabilidades, educação, crianças, propagandas.

boa leitura!

Patricia

Querida Monica

Corretíssimo o seu argumento. Se você me permite, eu queria acrescentar um problema: o da propaganda. Como se sabe, a repetição constante de slogans gera valor, que se agrega ao produto sem que essa correspondência seja necessariamente verdadeira ou fruto de reflexão racional. Ou seja: a propaganda cria uma imagem que não é o “real”, mas o “ideal”. Inventam-se necessidades, porque é disso que vive o capitalismo. Quem precisa realmente consumir produtos do McDonald’s? A nova safra de propagandas mostra que comer nessa lanchonete é mais do que matar a fome ou mesmo o desejo de comer algo gorduroso e salgado; é integrar o grupo de pessoas sofisticadas que conhece alimentação “saudável”. Gerou um valor que extrapola o produto. A última propaganda do McDonald’s que vi era exatamente isso. Nela, um rapaz opta por comer uma saladinha na lanchonete. Ele está sozinho – o que significa que a ideia de alimentação saudável ainda tem poucos adeptos. No entanto, duas moças se aproximam do mesmo balcão, e elas também optaram pela salada. No “body language” da propaganda, o rapaz percebe a afinidade e empurra sua bandeja para perto das moças, para mostrar a elas que ele também sabe o que é realmente importante na vida. A conotação sexual é óbvia. Pronto, está criada uma necessidade. A mensagem é: se você quer ser sofisticado e conquistar moças sofisticadas, peça uma saladinha no McDonald’s. Veja que a propaganda, a título de falar de alimentação saudável, na verdade está gerando outro tipo de valor, de caráter social. Isso se repete nas propagandas voltadas para o público infantil. Elas não focam o alimento em si, mas em sua potencialidade como “diversão”, que inclui até mesmo um brinquedo de verdade, os tais brindes que vêm com o McLanche Feliz (agora com maçã…). Nas propagandas desse produto, o sanduíche mal aparece; o destaque invariavelmente é dado ao brinquedo. Com o tempo, a criança identificará o McDonald’s como algo divertido – não se come o sanduíche porque ele é gostoso, mas porque ele faz parte de uma fantasia completa, criada pela propaganda. Mesmo os adultos, responsáveis por regular a vida das crianças, acreditam nisso.

Isso significa que essas propagandas são “abusivas” e deveriam ser proibidas, como já aconteceu com a propaganda de cigarros? Não sei. O que sei é que a capacidade de exercer o livre arbítrio sobre comer ou não o trash food é substancialmente prejudicada pela criação de uma realidade paralela, em que comer o hambúrguer ruim do McDonald’s faz alguém dizer: “Amo muito tudo isso”. Note bem o slogan. “Amo” implica que o consumidor da propaganda repetirá mentalmente o slogan em primeira pessoa, como se ele, pessoalmente, amasse aquilo. Mas não basta “amar”, é preciso “amar muito”, com intensidade irrefletida. Por fim, o que se “ama muito”? “Tudo isso”. Ou seja, ama-se muito não uma ou outra eventual qualidade do McDonald’s, mas toda a ideia do McDonald’s, o que ele representa como estilo de vida.

Dê graças a Deus que você consegue resistir a isso. Pouca gente consegue.

Marcos

 

Comente que a gente fica contente. E volte para ver nossa resposta. Ou trackback do seu próprio site.

6 comentários para “Amo muito tudo isso?!”

  1. Cláudia Moreno disse:

    Muito bom, realmente somos (quase todos) manipulados por essas propagandas que tentam incluir valores nas nossas vidas. É quase que inconciente, por isso é necessário que estejamos sempre ligados ao que nossas crianças estão assistindo tentar resistir ao máximo esse tipo de ideia que tenta nos convencer.

  2. Tomara que o Marcos leia meu comentário. Há muito tempo vi no GNT um documentário sobre a indústria da propaganda. Exibiram um comercial do McDonalds com a narração do publicitário. O efeito é assustador. Se passar o comercial da saladinha e alguém ler o seu comentário por cima, vai conseguir o mesmo efeito. Na última semana discutimos bastante sobre se comerciais deveriam ser proibidos ou não. Eu não esqueci aquele documentário, que funcionou pra mim como uma vacina. Se esse tipo de documentário, esse tipo de post de blog, essas discussões, tiverem visibilidade e alcançarem o grande público, a proibição deixa de ser necessária. O Mcdonalds não mudou cardápio porque eles se conscientizaram, foi porque nós nos conscientizamos. Com a propaganda tem que acontecer a mesma coisa!

  3. alessandra b silva disse:

    Excelente !!!!

    Aqui em casa NINGUÉM come Mc….. Fiquei surpresa qdo fomos viajar e no aeroporto paramos no Mc (por total falta de opção) e o Artur (2 anos) olhou para a batata e falou BATATA MAMÃE. Detalhe ele não come batata frita em casa e nunca foi no Mc….. detonou a batatinha……

    Deixei ela experimentar Pringles na viagem….. acordou no dia seguinte pedindo BATATINHA MAMÃE…..

    Detalhe…. as únicas coisas que ele pede para comer são pera, danone e gelatina….

  4. Pri disse:

    Olá Patricia boa noite!
    Olha concordo plenamente com o que foi escrito pela Mônica no post anterior e também com a escrita do Marcos neste post.
    Sou mãe de um pequenino de 3 anos e não tenho vergonha alguma de dizer que ele nunca ganhou um MCLanche Feliz,pois quem molda o paladar do meu filho sou eu que sei exatamente o que é saudável pra ele.
    E também acredito que o numero de comercial incentivando as crianças a pedirem brinquedos desnecessários a seus pais deveria ser proibido,pois se você liga a TV em um sábado pela manhã o que vemos de propaganda é assustador e porq ele fazem isso?
    Por que em um sábado pela manhã as crianças estão na frente da tv assistindo a seus desenhos preferidos ou seja a propaganda vai direto a seu publico determinado, que instantaneamente solta a tão conhecida frase: Mãe compra pra mim!
    Beijosss
    http://olhandodoauto.blogspot.com/

  5. Ana Beatriz disse:

    Pessoal, realmente é bem valioso este debate. E pelos comentários, parece haver um certo entendimento de que nao se trata de opor educacao e regulaçao publicitária de alimentos, como se uma açao substituisse a outra. A complexidade da alimentaçao e seus efeitos sobre a saude exige cada vez mais a atuacao consciente dos pais sem prescindir da atuacao do estado, que ao estabelecer regras para este tipo de relacao de consumo, amplia em muito as oportunidades de se educar, orientar e promover o crescimento saudavel das criancas sem a interferencia excessiva das estrategias adotadas nas propagandas de alimentos, como bem destacou o Marcos.

    .

  6. agradeço por esta atitude lúcida de dar destaque a este comentário! parabéns de verdade!

    é claro que a obrigação de educar e de impedir o consumo de substâncias inadequadas é dos pais, porém temos que entender a complexidade da indústria e admitir que é muito custoso lutar contra um apelo deste. até nós, adultos, caimos nas arapucas da publicidade, imagine, então, as crianças…

    excelente comentário!

Deixe um comentário