A indústria alimentícia e o sal

Reproduzo abaixo um excelente editorial do Estadão explicando porque a relação entre o sal e a indústria alimentícia é tão complicada. E o quanto a gente paga por isso. Boa leitura!

beijos

Mônica

Uma pintada de bom senso

 

O Estado de S.Paulo

O Ministério da Saúde e a Associação Brasileira das Indústrias de Alimentação (Abia) firmaram acordo fixando metas para a redução, até 2015, da quantidade de sódio presente em caldos, temperos, margarinas vegetais e cereais matinais. Trata-se do terceiro de uma série de compromissos voluntários assumidos pelas indústrias para combater esse que é um dos grandes vilões da dieta do brasileiro, feita basicamente de alimentos processados.

A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda um limite de 5 gramas diárias para o consumo de sódio. No Brasil, no entanto, dados do IBGE mostram que são consumidas 12 gramas em média, o que talvez explique por que um em cada quatro brasileiros sofre de hipertensão, mal responsável por doenças cardiovasculares, além de estar relacionado à insuficiência renal crônica. A comparação dos alimentos fabricados no Brasil com os feitos no exterior ilustra bem o tamanho desse problema. Como mostrou o Estado (29/8), cada 100 gramas de macarrão brasileiro, antes do acordo do governo com as indústrias, tinha entre 2 mil e 4 mil miligramas de sódio, contra uma média de 926 miligramas para igual quantidade de massa produzida no Canadá.

O sódio é uma espécie de inimigo oculto. Uma pesquisa do Instituto Dante Pazzanese de Cardiologia mostrou que, dos 1.294 hipertensos entrevistados, 93% não sabiam que o sódio descrito nas embalagens se refere ao sal. Além disso, o sódio não aparece somente em produtos salgados, mas em adoçantes, fermentos e conservantes. Ele está presente ainda em realçadores de sabor, que são descritos nos rótulos como glutamato monossódico.

Estudos médicos apontam que a redução do sal na dieta é tão importante para o combate a doenças cardiovasculares quanto parar de fumar e controlar os níveis de colesterol e o peso. Segundo o Ministério da Saúde, se os brasileiros seguirem a recomendação da OMS, poderá haver diminuição de até 15% no número de mortes por acidente vascular cerebral e de até 10% no de mortes por enfarte. Além disso, 1,5 milhão de brasileiros não precisariam mais tomar remédios contra hipertensão.

No entanto, o cronograma para que o acordo com as indústrias se estenda a todos os 13 principais grupos de alimentos, fixado em 2011, está atrasado. Esses limites já deveriam ter sido estabelecidos, mas ainda restam três classes importantes – laticínios, embutidos e alimentos prontos – cujo prazo para a definição de metas ainda não foi formalizado. Um dos motivos da demora é que as mudanças dependem de adaptações tecnológicas dispendiosas. A associação das indústrias informou que uma parte dos R$ 12 bilhões investidos pelo setor em 2011 para melhorar sua produção foi destinada à redução do sódio. Por outro lado, o grande problema da indústria de alimentos nesse caso é que o sódio interfere no sabor e atua como conservante. Ademais, o sal é o ingrediente mais barato depois da água – logo, substituí-lo por alguma outra fórmula significa despesas adicionais e encarecimento do produto final.

O governo e as indústrias, no entanto, estão confiantes de que as medidas tornarão o Brasil um exemplo mundial no trato da questão, antecipando-se a futuras diretrizes da OMS. “O modelo de adesão voluntária, com monitoramento das vigilâncias, pode vir a ser o recomendado pela OMS”, disse o ministro da Saúde, Alexandre Padilha.

Para especialistas, porém, as metas deveriam ser bem mais ambiciosas. Anita Sachs, professora de Nutrição da Universidade Federal de São Paulo, explica que o limite fixado para os cereais matinais, por exemplo, deveria ser de 418 miligramas de sódio para cada 150 gramas de produto, e não para cada 100 gramas, como ficou convencionado. Já o Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor considera que a meta estabelecida para o macarrão instantâneo equivale ao total do consumo diário recomendado para adultos – isto é, basta um prato desses para inviabilizar qualquer dieta. Logo, embora seja uma iniciativa louvável ante a urgência do problema, o acordo entre o governo e as indústrias de alimento só pode ser festejado como um modesto início.