Já vou avisando que o post é longo e mau-humorado.
Distúrbios de alimentação: Mitos e verdades. Esse foi o tema da primeira palestra no café com blog, do Hospital Sabará. O pediatra José Luiz Setúbal começou a conversa contando que há dois ou três anos, durante palestra nos EUA, ouviu de um pediatra uma observação preocupante: as crianças nascidas nessa década correm o risco de serem as primeiras a viver menos que as de gerações anteriores por causa da obesidade.
E boa parte das crianças obesas ou com excesso de peso são vítimas de erro alimentar. VÍ-TI-MAS, sim, afinal não custa lembrar que quem compra os alimentos para nossos filhos somos nós, os adultos da relação.
Então, dito isto, a Academia Americana de Pediatria listou as principais causas de erro alimentar. São elas:
1º – vulnerabilidade diante da propaganda voltada para as crianças;
2º – sedentarismo;
3º – excesso de ingestão de alimentos supercalóricos.
A psicóloga Patrícia Spada, especialista em distúrbios de alimentação e presente na palestra, foi categórica ao dizer que o erro alimentar começa em casa, com a família. “Há uma questão cultural fortemente arraigada da associação da imagem do bebê, e da criança até os 2 ou 3 anos, fortinha, gordinha, com a da criança saudável. A imagem da criança de bochechas cheias e rosadas está ligada à mensagem de boa função materna, de que a mãe está realizando bem a sua função que é alimentar seus filhos”, diz a psicóloga.
E é assim mesmo. A gente sente na pele essa história de que criança magra é doente. Criança cheia de dobrinhas é saudável. Eu e Mônica somos mães de crianças magrinhas, “puro osso” como dizem meus filhos, e alvo de olhares do tipo “tadinhas, tão pequenas”. Esta tal magreza dos nossos filhos motivou a Mônica a escrever o ótimo post Criança magra = criança doente? (http://www.comerparacrescer.com/2010/04/26/crianca-magra-crianca-doente/), que gerou muitos comentários (alguns bem assustadores). Na nossa seção Ajude A Fazer o Comer (http://www.comerparacrescer.com/2011/05/11/ajude-a-fazer-o-comer-para-crescer/) temos várias perguntas que seguem a mesma linha.
Diante da pressão para que o filho tenha gordas bochechas e roliças pernas (como eu aos 2 ou 3 anos), o que faz a pobre mãe? Culpada por achar que não está sendo competente na sua função de fornir as herdeiras, recorre aos tais alimentos supercalóricos. Quais são eles? Vários. Um deles é o leite engrossado com farinhas ultra-mega-blasters açucaradas, oferecidas várias vezes ao dia. E assim a criança vai se acostumando a comer muito e comer muito doce, perdendo a noção de saciedade e engordando.
“O melhor é disciplinar a família, propondo e ensinando práticas de hábitos saudáveis de alimentação”, diz a psicóloga Patrícia.
E quem pode ensinar esses pais? Talvez o pediatra. Mas, segundo José Luiz Setúbal, 80% das crianças que são levadas ao Sabará, que é um hospital particular, NÃO TÊM PEDIATRA!!!!!!!
Ok, você pode argumentar, então, que o filho até tinha pediatra, mas o sujeito não te orientava direito, que não escutava as queixas com ouvidos de quem tem interesse em escutar. Concordo. Isso pode até acontecer. Mas, segundo dr. Setúbal, muitos pais não têm pediatra “porque o médico não atende depois das 20h, único horário possível pois antes disso estou trabalhando.”
Oi? PÁRA TUDO (não consigo ainda escrever pára sem acento). Acho que dormi durante 20 anos e por isso estou perdida e não estou entendendo. Como assim o médico atender às 20h? Sério que não há clima na firma para sair mais cedo -ou chegar mais tarde- para levar o filho ao pediatra ou nutricionista? Será que estou maluca por achar que estamos diante de uma sociedade que assiste de camarote crianças adoecerem diante dos nossos olhos, com risco de enfartar cada vez mais cedo, e os pais se escorando na desculpa de “não dá para faltar porque meu chefe é o ogro do pântano”?
Ou será que não estamos dispostas a não fazer nada. Estamos na pegada de “eu mereço” e, portanto, vamos nos entupir – e engordar nossos filhos – de açúcar e de gordura e se jogar no sofá sem pique para nada. A nutricionista Luciane, também especialista do Sabará, contou na palestra que somos capazes de consumir, POR IMPULSO, 150 calorias durante uma hora de TV por dia.
150 calorias consumidas assim, rapidinho. A criança pode consumir menos, claro. Pode pedir maçã, pêssego, banana SE for ensinada, SE estiver à disposição dela, numa fruteira sobre a mesa e não socada na geladeira, escondida ou inalcançável.
Não acho que seja TÃO impossível assim avisar a chefia com alguns dias de antecedência que chegará mais tarde ou sairá mais cedo, porque vai levar a criança no pediatra, na nutricionista, na terapeuta, no oftalmologista, dentista… (Se for, esfole a chefia sem-noção e se junte a Zumbi porque escravidão, pelourinho, graças a Isabel, já se foi a séculos!)
Como disse a Mônica no polêmico post Não culpe o fast food, vá educar seu filho (http://www.comerparacrescer.com/2011/10/13/o-mcdonald%C2%B4s-esta-mais-saudavel-ou-nao-culpe-o-fast-food-va-educar-seu-filho/): sim nós podemos, nós temos a força. Nem é preciso peitar chefe, se indispor com as colegas de trabalho, se desgastar com o RH. Dialogar, compensar horário, antecipar trabalho.
Dá trabalho? Não, se você é organizada. Sim, se é desorganizada como eu (mas, como tenho um maridón germanicamente organizado, tô no lucro).
O que não é possível é persistir no erro alimentar que leva a criança para o poço da obesidade (sabia que dentro desse poço ela mergulha ainda mais fundo para o diabetes, colesterol, depressão, bulling etc?). É uma desgraça, basicamente. Jura que ver uma criança assim não te atormenta a ponto de fazer você mudar completamente a rotina para tirar esse pequeno ser, que não tem autonomia, do poço que ajudamos a jogá-la?
É o caso de azucrinar o(a) pediatra, de buscar um pediatra nutrólogo, nome do médico especialista em nutrição. Além disso, pode parando de comprar pacotes e mais pacotes de biscoito, bolachas recheadas, sucos e mais sucos de caixinha, chocolates, balas etc. Tudo isso tem açúcar e gordura em demasia. Minha mãe, para o meu desespero, comprava um para o MÊS!!!! Acabou, acabou! Claro, que não repito a loucura materna, mas não compro muitos e procuro variedades, olho rótulo, leio os ingredientes. Sou muuuuito pentelha. Troco por pipoca. Mais saudável e gostoso. Faço bolo sem recheio e cobertura (nem sempre, claro). Incluo, quando possível, fruta no sorvete. Controlo. Limito. Vario. Organizo. Cozinho com meus filhos (nem sempre comida de baixa caloria), mas adoro que eles fiquem comigo na cozinha. Basicamente, a diferença entre a minha casa e um quartel, é que aqui temos amor e justamente, por isso, não somos negligentes. Não temos coração de pedra, mas também não achamos normal criança ter de usar roupa de adulto porque tem peso em excesso.
E sorry pelo post enooooorme.
Beijos,
Patricia
PS: Dr. José Luiz Setúbal explicou que a obesidade infantil não atinge mais as crianças das classes B e C do que as de classe A. A obesidade infantil é universal atinge tanto as crianças do andar de cima quanto as do andar de baixo (parafraseando Elio Gaspari). Aliás, pesquisa da Unifesp já mostrava esse erro generalizado na alimentação infantil em todas as classes sociais há dois anos.