Criança enjoada pode ser saudável?
Filed Under : comportamento,Patrícia descobre a feira,Patricia Descobre a Feira by Comer para Crescer
12/mar/2012Na semana passada uma leitora, filha e não mãe, deixou um comentário interessante sobre a equação apetite restrito x criança saudável. A partir da própria experiência, ela defende que nem toda criança e adolescente que rejeita verde e frutas pode desenvolver uma doença como obesidade ou diabetes. Claro, tem razão. Mas o pequeno relato dela levou a algumas reflexões sobre essa equação e também outras questões. Convido nossas leitoras a ler comentário e replica e dar a sua opinião sobre o tema. Queremos saber o que você pensa sobre essa discussão.
“Gente, sinceramente? Acho louvável a preocupação com a alimentação saudável dos filhos, mas o fato deles serem enjoadinhos pra comer não, necessariamente, significa que não serão saudáveis. Vou dar o outro lado da história: o dos filhos. Sempre fui muito chata pra comer, mesmo! Desde pequena adorava coisas salgadas (tipo linguiça frita e salsicha no café da manhã com 3 anos de idade). Nunca gostei de provar coisas novas, especialmente frutas, verduras e legumes. Desde que eu me lembro, refeição pra mim era arroz e carne, às vezes uma salada de alface ou tomate. Nem feijão eu comia. Hoje, com 19 anos, algumas coisas melhoraram. Mas continuo não sendo fã de verdura e legumes. De folhas, só como alface (nada de rúcula e agrião, eca). Como tomate, cenoura, beterraba….até brócolis, mas só às vezes e no yakissoba, com muito shoyo. Não gosto de quase nenhuma fruta (como uma vez por mês, na melhor das hipóteses, e acompanhadas de leite condensado). Não bebo suco. Amo coca-cola, McDonalds e porcarias do tipo. Também não como peixe. Apesar dessa dieta, por incrível que pareça, nunca tive nenhum problema: nem obesidade nem falta de nutriente. Exames sempre normais, a despeito das broncas da endocrinologista e dos meus amigos sobre minha alimentação. Ainda faço cara de nojinho e digo que não gosto de certas coisas sem nem experimentar? Sim. Acho importante mostrar coisas novas, oferecer comidas diferentes, mas sempre dando a opção da criança recusar. Eu ficava com tanta raiva quando minha mãe me obrigava a experimentar um pedaço de alguma coisa que eu não queria, por menor que fosse. Engolia sem nem sentir o gosto e falava “tá vendo? é ruim mesmo, não gosto”. Enfim, criança também tem direito de não gostar das coisas. Alimentação saudável e balanceada é importante? É. Mas crianças sobrevivem muito bem sem brócolis. E comer umas porcarias de vez quando não vai matar ninguém. Até porque depois de uma fase de alimentação meio trash, o corpo acaba pedindo comidas saudáveis. Sei disso por experiência própria, depois de passar os 2 primeiros meses na universidade almoçando subway, spoleto e McDonalds. Letícia Tavares”
Letícia,
Meu filho também ama linguiça frita. Se eu oferecer no café da manhã, acho que ele vai adorar. Sabe que o seu apetite matinal me lembrou o do Elvis Presley. Dizem que ele adorava pizza no desjejum. Comia muitas fatias acompanhadas por Coca-Cola gelada.
Bem, adorei o seu relato. Curti “ouvir” o lado dos filhos.
E olha só, aqui no Comer para Crescer a gente também acha que comer umas porcarias de vez em quando não faz mal a ninguém. O problema está no fato desse “de vez em quando” tornar-se frequente.
Também concordo contigo sobre o corpo pedir comida saudável depois de excessos. Lembro que quando fazia cursinho não tinha tempo de jantar comida-comida, então acabava recorrendo aos lanches. O resultado: em seis meses ganhei uma tremenda e horrorosa gastrite ocasionada também pelo excesso de consumo de embutidos.
Também estou contigo no item: dar à criança o direito de recusar a oferta de um novo alimento. Não é saudável. Por outro lado, cabe aos pais convidar os filhos à experimentação de algo novo. Não vale obrigar, chantagear.
Justamente por você ter contado como é o seu paladar – e consequentemente a sua dieta, bem ao estilo Atkins-, que fiquei curiosa em saber se você foi uma criança bastante ativa ou passava boa parte do dia assistindo TV e jogando videogame durante a sua infância. Também não contou como era o consumo de doces na sua casa? Liberadíssimo, tinha certo controle ou era um esquema mais rígido? Fiquei curiosa com esses detalhes.
E, sabe, meu paladar não era muito diferente do seu na minha infância e adolescência, mas minha mãe limitava o consumo de doce. Lembro que eu não tinha muita oferta de bala, chocolate e bolos em casa. Não era o esquema “doce à vontade”. Quando eu queria algum, precisava pedir dinheiro para a minha mãe (o que já é um fator limitador) e ir até a “venda” do Seu João.
O dinheiro para essa compra não era farto. A grana dava para comprar apenas um doce, o que demandava alguns minutos de namoro diante da vitrine para escolher o ‘certo’. Sempre saía da “venda” com um chocolate ou um doce de abóbora ou um de batata-roxa ou com uma ‘teta de nega’.
Além de não comer tantos doces o dia inteiro, mas comer pelo menos um todos os dias, a minha vida infância foi absurdamente ativa, assim como a adolescência. Eu realmente gastava todas as calorias que consumia brincando ao ar livre com os amigos da rua ou da escola e depois fazendo muito esporte e balé.
Talvez você tenha razão sobre a preocupação excessiva em oferecer comida saudável quando o que o filho mais deseja é uma linguiça frita no café da manhã.
Por outro lado, eu acho que, atualmente, essa preocupação se justifica porque meus filhos, por exemplo, não precisam negociar o dinheiro do doce nem têm de ir “na venda do Seu João”, ficar namorando a vitrine até escolher um. A oferta está em casa, ao alcance da mãe e é bem variada.
Enfim, a preocupação do Comer para Crescer sobre a oferta de um cardápio mais saudável e menos calórico tem a ver com o estilo de vida das famílias no século 21, que mudou radicalmente os hábitos – alimentares e, digamos, de “locomoção”. Essa mudança está aí para todos nós enxergarmos. A quantidade de crianças obesas, e não apenas gordinhas, é o reflexo desse novo estilo de vida.
Há excesso de oferta de alimentos calóricos e falta de oferta de atividade, de locomoção, de andar a pé, de bicicleta, de patins, de pular corda, de brincar ao ar livre. E esse desequilíbrio é realmente preocupante. Não acho que a criança possa viver bem sem brócolis. A falta de costume de comer verduras e legumes, ou seja, ingerir alimentos de baixa caloria e ricos em nutrientes, combinada com o excesso de brincadeira sedentária (leia-se computador e videogame) pode, sim, levar a criança a ter uma saúde debilitada. Não sou eu que estou dizendo. Os fatos estão nos mostrando.
beijos e obrigada por comentar,
Patrícia

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