
Mais ou menos nessa época do ano, em 2010, escrevi o post abaixo. Lembro de ter esquecido de colocar as fotos. Recupero o post, com as imagens, como sugestão de prato para esses dias preguiçosos e aproveito para contar que esse macarrão se transformou no macarrão predileto dos meninos, mesmo com pimenta.
Depois de uma cansativa insistência, maridón finalmente atendeu aos meus apelos e mandou a receita do macarrão à carbonara, além de um singelo depoimento sobre a experiência de cozinhar a pasta acompanhado dos meninos. Eu amei o texto porque tem o humor masculino pelo qual me apaixonei há 17 anos (agora já são 18 anos).
Boa leitura e boa pasta!
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Saber cozinhar sempre foi um desejo meu, embora eu tenha mais destreza para virar as páginas de um romance de Dostoiévski do que para acertar o sal do macarrão. Os meus 42 anos, porém, indicam que fui criado ainda no modelo familiar tradicional, e nunca vi meu pai de avental de cozinha, a não ser no carnaval, depois de umas cervejas. Por isso, não tive, na minha infância, um modelo de prestígio para imitar no ato de cozinhar, como supunha a antropologia de Marcel Mauss – que, por ser francês, devia saber cozinhar bem pra burro. Era minha mãe que sempre cozinhava, e nunca deixava ninguém nem chegar perto para ver como fazer. (Trata-se de um traço persistente: já no Brasil colonial, diz Gilberto Freyre, as mulheres formavam uma “maçonaria” que passava as receitas de mãe para filha, quase aos sussurros, para ninguém mais ouvir.) 
Por outro lado, sempre admirei a combinação de ingredientes para chegar a um desses pratos deliciosos que nos fazem enfrentar o trânsito, as filas de espera e os preços absurdos para jantar fora. Isso não é acaso ou ciência. A culinária conta uma história apaixonante, que une sabores, paladares e costumes. Sentir a boca encher de água diante de uma feijoada bonita não é somente sinal de fome, é resultado fisiológico de admiração por uma cultura. Talvez seja por isso que eu ainda esteja adiando minha entrada definitiva no mundo da cozinha. Não sei se tenho preparo intelectual para cozinhar – e preparo intelectual, aqui, deve ser entendido como a capacidade de compreender instintivamente os ingredientes em si, a relação entre eles e deles como nossos desejos gustativos, atuais e ancestrais. Limito-me, como a maioria dos homens, ao trivial macarrão-ovo-pipoca.
No entanto, dia desses, deparei-me com uma receita de macarrão à Carbonara, no site do New York Times. A foto da receita, com uma lingüiça italiana e um pedaço de queijo pecorino, era irresistível. Como sempre faço quando vejo algo bacana, mandei para a Patricia, essa santa que casou comigo. Ela sugeriu, então, que eu mesmo fizesse o macarrão – como eu nunca havia ido além do alho-e-óleo ou do molho de tomate, achei que era demais para mim. Mas li a receita e concluí que, sim, eu podia. Patricia, porém, não se contenta com pouco. Além de me pedir que cozinhasse, ela sugeriu que eu convidasse Samuel e Miguel, nossos filhos pequenos, para participar.
Era a soma de todos os medos. Três homens na cozinha, sendo que dois deles tinham menos de dez anos de idade, era desafiar demais as tradições patriarcais da sociedade brasileira. Fiquei esperando que o raio de reprovação de Deus-macho rachasse nossas cabeças por ocupar o lugar que deveria ser de uma mulher. Nada disso aconteceu, porém. Eu e os meninos fizemos a receita com destreza inaudita – evidentemente, houve alguns contratempos, como quando pedi para Miguel triturar a carne da lingüiça, e ele fez cara de nojo, ou quando pedi para Samuel colocar a pimenta, e ele fez cara de pânico.
Quando o prato foi à mesa, comemos, eu e Patricia, como se fosse a última Coca-Cola gelada do deserto. Já os meninos… Bem, mesmo com o evidente orgulho deles pelo conjunto da obra, o fato de termos apimentado a massa não foi bem aceito pelos nossos pequenos gourmets. Apesar disso, tenho certeza de que a experiência de terem cozinhado junto com o pai não será esquecida.
Eu não vou esquecer.
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Segue a receita:
Spaghetti Alla Carbonara com Linguiça
Tempo: 45 minutos
½ quilo de linguiça italiana doce (sweet Italian sausage)
1 colher de sopa de azeite extra virgem
1 colher de sopa de manteiga sem sal
1 cebola média cortada em fatias finas
1 e ½ colher de pimenta do reino
2 folhas de louro
½ xícara de vinho branco seco
1 quilo de espaguete com sal
3 ovos grandes
¼ de xícara de queijo pecorino romano
Preparo:
1. Remova as tripas da lingüiça. Usando uma faca, um garfo ou as mãos, corte a carne em pedaços pequenos. Aqueça o azeite e a manteiga em uma frigideira grande. Adicione a cebola e cozinhe em fogo médio/baixo até ficar transparente.
2. Adicione a linguiça e triturá-la uma colher de pau até que ela esteja uniforme e perca sua coloração rosa. Misture a pimenta e as folhas de louro. Adicione o vinho e cozinhe até que tenha quase evaporado, cerca de 2 minutos. Retire a frigideira do fogo e descarte as folhas de louro. Tempere a carne com sal a gosto.
3. Leve uma panela grande de água salgada para ferver. Cozinhe o espaguete até ficar al dente, 6-7 minutos. Enquanto isso, encha uma tigela grande com água quente ou morna em forno baixo. Bata levemente os ovos em um prato pequeno. Pouco antes de macarrão ficar pronto, retorne a frigideira com linguiça ao fogo baixo. Quando o macarrão estiver pronto, lentamente bata aproximadamente uma colher de água do macarrão com ovos. Em seguida, escorra a massa.
4. Transfira a linguiça para uma travessa. Despeje o espaguete e misture com a linguiça, lentamente adicionando os ovos batidos. Adicione sal a gosto e o pecorino.
Rendimento: 4-6 porções.