Papinhas no Mundo – Itália

Nunca pensou em colocar queijo na papinha? Chiquérrimos, os italianos acrescentam parmigiano reggiano logo no começo! É isso que conta nosso querido Allan Robert, autor do muito bem escrito Carta da Itália, em nosso segundo capítulo de PAPINHAS NO MUNDO. Quando pedi ajuda Allan fez a lição de casa direitinho: relembrou suas experiências, conversou com mães e pediatras. O texto, delicioso, vem com um monte de dicas bacanas. Buon appetito!

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Querida Mônica, andei ouvindo as amigas que são mães e até um médico pediatra. Descobri que a papinha italiana tem algumas diferenças daquela brasileira. Diria que basicamente existem duas linhas de pensamento – excluindo as nuances de cinza e meios-termos. A primeira é a que defende a papinha como sempre foi feita desde os tempos da criação da sociedade moderna, que eu chamaria de tradicional ou biológica; a segunda linha de pensamento diz respeito às papinhas prontas, os homogeneizados industriais. Os que as defendem (as papinhas prontas), garantem que esse tipo de alimento oferece uma garantia de segurança quanto ao frescor e qualidade dos alimentos utilizados, graças às rígidas normas de controles de higiene e qualidade promovidas pelo ministério da saúde italiano. Uma garantia que, segundo os defensores da papinha pronta, não é garantida nos produtos frescos à disposição dos consumidores (e eu me pergunto: e não é tudo igual?). Outras vantagens desse tipo de alimentação seriam a trituração extremamente fina dos alimentos e que o processo industrial evitaria incorporar ar à papa, que pode provocar uma precoce sensação de saciedade, como costuma acontecer com o normal liquidificador de casa. Para finalizar, a papa industrializada não perderia os valores proteicos e de vitaminas e minerais, o que ocorre com o cozimento em casa. Pessoalmente acho que tem muita gente sendo paga para difundir essa segunda filosofia. O grande produtor de papinhas prontas na Itália é a Plasmon: http://www.plasmon.it

A grande diferença que acontece na Itália é que a mãe pode gozar da licença maternidade com uma maior elasticidade. Por três meses, recebendo 100% do salário (período obrigatório por lei); mais dois meses com 80% do salário; mais dez meses com 30% do salário; Ou seja, a nova mamãe pode ficar em casa por quase dois anos sem perder o emprego e solicitar, ao seu retorno, um “período de expectativa” não remunerado por até mais dois anos, ou uma redução do horário de trabalho (que a empresa pode aceitar ou não), fazendo meio turno, com a respectiva redução de salário. Isso sem contar com a preciosa ajuda das avós, que costumam participar ativamente da vida dos netos nos primeiros anos de vida. Algumas regiões presenteiam os recém-nascidos com um único cheque que varia de € 500,00 a € 1.000,00. Se for mãe solteira ou tiver mais de quatro filhos, receberá ajuda econômica da prefeitura além de uma série de isenções. Conheço apenas uma mãe que voltou ao trabalho antes dos dois anos. Todas as outras ou usufruíram dos dois anos e voltaram ao trabalho ou, uma vez terminado o período de licença, se demitiram. Mais tempo em casa, mais tempo para dedicar-se aos filhos e fazer a papinha sem pressa.

Curiosamente, apesar dos médicos defenderem a amamentação no peito por, pelo menos, um ano, enfatizando que o ideal seria amamentar no peito até os três anos, a maioria das mães opta pelas mamadeiras, por pura questão estética. Ou seja, ter filho sim, peito caído, não. As mesmas mães usam o carrinho de bebê até os quatro anos, quando o moleque já sabe até correr. Não há uma referência exata para começar a dar a papinha. Vai depender se o bebê é amamentado no peito por um período de pelo menos um ano, e aí inicia-se a papinha uma vez por dia. Nos casos dos bebês de mamadeira, a papinha começa a ser ministrada a partir do sexto mês, mas não chega a ser uma regra. A única regra é começar com a papinha ao meio-dia e, aos poucos, ir substituindo a amamentação da noite com a papinha. A amamentação matinal acabará sendo substituída pelo leite no copo. Sim, tem a merenda da manhã e da tarde, que serão substituídas por frutas raspadas ou chupadas.

Mas vamos ao que interessa. A base da papinha tradicional é sempre o brodo vegetal. Uma vez feito o brodo, adiciona-se os demais ingredientes e bate-se no liquidificador ou passa na centrífuga, ou, ainda, coa-se tudo com uma peneira não muito fina.

Brodo vegetal:

  • ½ litro d’água
  • 50 gr de cenoura
  • 50 gr de batata
  • 50 gr de abobrinha
  • Nem pensar em sal ou cubinho Knorr

Cortar os vegetais em pedaços pequenos e cozinhar com fogo lento até reduzir à metade. Passar tudo na peneira fina sem esmagar. Adicionar 5 gr de azeite de oliva. A partir do sétimo mês de idade e do 15º dia do início da papinha, adicionar 5 gr de Parmigiano Reggiano. (Atenção, Mônica: trabalhei no ramo e conheço muito bem esse tipo de produto. NUNCA, JAMAIS, EM TEMPO ALGUM use o queijo ralado em saquinho. Nem para as crianças, nem para os adultos. Compre um pedaço de queijo, retire-o da embalagem plástica, enrole-o em um pedaço de papel – saco de pão – e deixe-o na porta da geladeira, ralando somente o necessário na hora de adicionar ao prato. Aqui na Itália onde esse tipo de controle é muito rigoroso, após um controle, descobriram que mesmo entre as principais marcas era possível detectar no produto até 15% de queijo ralado!)

Após a primeira semana, adicionar 15 gr de um cereal sem glúten: creme de arroz, creme de milho com tapioca, creme de arroz com milho e tapioca ou massinha (estrelinha – própria para papinha).

A partir da segunda semana, se bem tolerado, adicionar 40 gr de carne magra, bem cozida só com água e desmanchada com o garfo, iniciando com peru, coelho ou carneiro.

A partir da terceira semana, adicionar gradualmente no brodo diversas verduras da estação, muito bem lavadas, mas não esterilizadas: coração de brócolis, espinafre, salsão, abóbora, erva-doce, beterraba, alho-porro, alface, etc. Evitar couve, couve-flor, e cebola que deixam no brodo um sabor desagradável ao bebê. Não inserir tomates ou legumes potencialmente alergênicos. Essa adição deverá acontecer aos poucos e com um vegetal de cada vez, observando possíveis reações alérgicas ou de intolerância. Variar a papinha com os diversos produtos de estação à disposição.

20 minutos antes da papinha, dar 30 gr de maçã ou pêra raspada com uma colher. Conte o tempo a partir do momento em que acabar de dar a fruta, pois esta será digerida antes da papinha e evitará a formação de gases, normal na fermentação da fruta servida logo após a papinha.

 

Regras oferecidas pelo pediatra:

– Ler as obras de John Tilden e Herbert Shelton

– Evitar a supernutrição – 3 refeições moderadas ao dia e nada mais

– Adaptar o bebê ao alimento e não o alimento ao bebê (salvo alergias ou intolerâncias)

– Fornecer ao bebê alimentos naturais, ou seja, crus, não industrializados, não esterilizados e não adulterados

– Dar alimentos simples. Evitar misturar alimentos que possam causar fermentação intestinal

– Não alimentar o bebê entre uma refeição e outra ou no período noturno

– Se o bebê estiver agitado, com raiva, cansado ou excitado, evitar alimentá-lo

– Em caso de febre, suspender rigorosamente toda a alimentação

– Não dar ao bebê fruta cozida

– Proibido misturar frutas ácidas com alimentos amidoados, com alimentos doces ou com mel

– Proibido misturar alimentos ácidos com proteína

– Proibido misturar fruta doce com fruta ácida

– Fornecer uma única proteína por vez

– Jamais fornecer proteína com leite

– Servir vegetais frescos em abundância antes de alimentos amidoados ou proteicos

– Proibido servir manteiga, óleos e qualquer outro tipo de gordura com alimentos proteicos

– Creme de aveia ou de milho podem substituir algumas papinhas
– Triturar os vegetais crus e adicioná-los à papinha
Com o tempo e quando o bebê tiver dentes para mastigar, a papinha poderá sofrer alterações, contendo pequenos pedaços de legumes cozidos com o brodo e carne desfiada.

Achei uma série de links que tratam do assunto, mas preferi obter as informações diretamente das fontes (mães e pediatra), mas esses dois links (em italiano) não pude evitar:

http://www.naturopataonline.org

http://www.pappaneonato.com

Tem também um blog de um pediatra que não dá consultas, mas aconselha muito às mães sobre a alimentação e cuidados com o bebê (em italiano):

http://valdovaccaro.blogspot.com

Beijocas,

Allan

 

P.S.  Allan Robert é um cara muito legal! Um dia pegou a mulher Eloá, as filhas Luiza e Bianca, e foi morar na Itália. Já fez um pouco de tudo. Do jeito que escreve, não sei muito bem como consegue ficar longe do jornalismo …

beijos

Mônica